Por Visual News Noticias / Sérgio Ferreira
A Polícia Civil confirma que a morte de Noélia Rodrigues de Oliveira, 38 anos, será classificada como o 27º feminicídio do ano no Distrito Federal.
A vendedora foi assassinada na noite de 17 de outubro com um tiro no
rosto. O principal suspeito está preso, mas não confessou o crime. Almir
Evaristo Ribeiro era vizinho da vítima e a suposição da polícia é de
que ele e Noélia tinham um relacionamento extraconjugal havia quatro
meses.
Registros telefônicos do
celular da vítima mostram que ela e o agressor mantinham contato. As
ligações entre eles duravam cerca de uma hora. Noélia foi vista com vida
pela última vez por volta das 22h, ao sair de um shopping na Asa Norte,
onde trabalhava havia dois anos, em direção ao Eixo Monumental. Câmeras
de segurança da área registraram o momento em que dois carros se
aproximam, ao que ela, aparentemente, esconde-se atrás de uma moita.
Almir estaria em um dos veículos.
A delegada Adriana Romana, chefe da 38ª Delegacia de Polícia
(Vicente Pires), que investiga o caso, afirma que ainda não é possível
dimensionar a intensidade da relação entre Noélia e o vizinho. Bolsa e
celular da vítima estão desaparecidos desde 18 de outubro, quando o
corpo dela foi encontrado no Assentamento 26 de Setembro, na região de
Taguatinga.
A hipótese de luta corporal foi
descartada, uma vez que não havia sinais compatíveis no laudo
cadavérico. De acordo com a delegada, é possível que o caso com o
vizinho estivesse se iniciando, e que ela talvez passasse por um período
de vulnerabilidade em que Almir levantava a autoestima dela. “Isso não
significa que ela tenha sido leviana com o marido. Quem vai poder trazer
essa informação agora para o inquérito é ele (Almir)”, complementa.
Antes
de concluir o inquérito, a Polícia Civil irá avaliar as provas da
perícia e dos Institutos de Criminalística e Identificação, além de
outros depoimentos para ajudar a desenhar o relacionamento entre os
vizinhos. Além disso, os investigadores tentam resgatar as mensagens
apagadas do celular de Almir.
Confiança
“Ela
dizia que se tem uma coisa sem perdão, é traição”, afirma o segurança
Marcos Paulo, 42 anos, viúvo de Noélia. Com mais de 11 anos de
casamento, ele descarta a hipótese de que a vendedora tinha um caso com o
vizinho. “De fato, tinham as ligações, mas não há nada que prove essa
relação. Tenho confiança de que ela não era uma pessoa assim, não fazia
esse tipo de coisa”, ressalta.
Ao longo da
década que passaram juntos, o marido garante que nunca houve suspeita de
traição. “Ela era bem criteriosa nesse ponto. A gente acredita que ela
tenha pegado uma carona inocentemente. Vi as imagens (das câmeras) e ela
não deixa nenhuma impressão de que fazia algo errado”, relata Marcos
Paulo. “Era sincera, uma pessoa que passava confiança.”
Ele
lembra ainda que parte da rotina do casal era ela sempre informar a
hora que saía do trabalho, quando entrava no ônibus e quando se
aproximava de casa, por motivos de segurança. O gesto se repetiu no dia
do desaparecimento. “Eu continuo em choque. Ela era uma pessoa especial.
A gente tinha nossos problemas, todo casal briga, mas a gente sempre
resolvia.”
Noélia deixou três filhos: um menino
de 16 anos, fruto do primeiro casamento, uma menina de 9 anos e um de
6, da união com Marcos Paulo. Segundo ele, a garota é quem mais tem
sentido a falta da mãe. “Ela fala que está com saudade, mas estamos
trabalhando para que ela não fique com nenhum trauma pela situação.
Estamos providenciando psicólogos e a escola está acompanhando com
professores e assistentes pedagógicos”, detalha. “Noélia era uma super
mãe. Ela jamais faria qualquer coisa para deixar os filhos
envergonhados.”
Nenhuma a menos! Esse é o pedido urgente do conjunto de
mulheres que mobilizam movimentos sociais no Distrito Federal na luta
contra o feminicídio. A necessidade de chamar atenção para o assunto e
cobrar providências eficazes do Estado é o que une iniciativas que
acontecem na capital até o fim deste mês. A proposta de fortalecer o
debate sobre as mulheres, instigou Cleudes Pessoa, 46 anos. Com ajuda de
outras representantes, a assistente social marcou uma assembleia para
discutir os caminhos de combate à violência doméstica e o assassinato em
razão do gênero.
A Assembleia Popular das
Mulheres contra o Feminicídio acontece neste sábado (26/10), às 15h, no
Museu Nacional. A expectativa é de que as participantes cheguem a
soluções para as inseguranças e necessidades das mulheres. “É também um
pedido de justiça para que casos sejam investigados e que existam
medidas eficazes para enfrentar e acabar com o feminicídio”, explica
Cleudes.
A também organizadora Fernanda Granja
explica que a negligência e o sucateamento das políticas públicas de
atenção à mulher, a desobediência do protocolo de segurança e a falta de
investimento em medidas protetivas, além da cultura machista enraizada
são alguns dos problemas que levam ao feminicídio. “Queremos seguir
nossos sonhos e caminhos sem violência, com segurança, sem apropriação
dos nossos corpos, sem submissão, sem dominação. O nosso futuro?
Construiremos. Luto é verbo.”
Em prol da
segurança feminina, a Administração Regional do Recanto das Emas
organiza uma caminhada contra o feminicídio. O ato está marcado para
este sábado (26/10), às 8h. Os organizadores se reúnem em frente à Caixa
Econômica Federal, próximo ao balão de acesso à cidade. O evento
“Recanto caminha pela paz” também alerta sobre a saúde feminina durante o
Outubro Rosa. A passeata se estenderá pela avenida principal e tem como
ponto final a sede da Administração.
Na
próxima semana, de 28 a 31 de outubro, a Faculdade de Artes Dulcina de
Moraes, em conjunto com a Fundação Brasileira de Teatro, promove o
evento Conexão Femme. O espaço vai receber especialistas que abordarão
temas femininos contemporâneos, além de refletir sobre Lei Maria da
Penha. O evento gratuito será na sala 306 da faculdade. Os participantes
receberão um certificado de participação eletrônico.
“Precisamos
discutir esse tema tão urgente e atual por toda comunidade acadêmica e
social, visto que a violência é o que mais afeta a sociedade brasileira,
sobretudo as mulheres, diante do aumento significativo nos casos de
feminicídio”, explica a organizadora Régia Diniz. O objetivo do projeto é
mostrar que a violência precisa ser vista como toda forma de violação
que causa dor física ou emocional. “É preciso romper o ciclo de
violência”, afirma Régia.